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Opinião: “Representatividade” deixa de fora crianças negras da favela

Opinião: “Representatividade” deixa de fora crianças negras da favela

Reprodução: Estadão Recomenda

Por Fabiana Lima

Publicado em 01/06/2023 às 16:13

Uma representatividade que só tira dinheiro do nosso bolso e não repõe, não serve. A serviço de quem está todo esse movimento?

O live action do clássico infantil, A Pequena Sereia, estreou nos cinemas de todo o Brasil na última quinta-feira, 25. O anúncio da escolha dos produtores pela atriz americana Halle Bailey, que é uma mulher negra, para o papel da sereia Ariel, que originalmente é ruiva, gerou uma série de comentários ofensivos e racistas nas redes sociais do mundo todo por conta da aparência da protagonista.

Logo, os movimentos raciais e ativistas se posicionaram em defesa da representatividade que a atriz traria para as crianças negras, que até hoje tem pouca ou nenhuma inspiração para embalar as fantasias que só estão reservadas ao período mágico da infância.

Ainda assim, toda essa publicidade mascarada de representatividade não alcança as camadas mais empobrecidas da sociedade, uma vez que, com 33 milhões de brasileiros integrando o mapa da fome, há uma chance nula de que essas famílias destinem algum recurso para levar as crianças para uma sala de cinema onde o valor dos ingressos corresponde ao valor da feira de uma semana inteira.

Como se não bastasse este fato, nesta semana a marca Mattel lançou a nova coleção de bonecas inspiradas no live action. Na propaganda uma menina negra aparece sorrindo segurando o brinquedo. Tudo muito lindo, se uma das barbies não custasse a bagatela de R$387 reais, navegando pelo site é possível encontrar modelos de até R $670.

Para quem vive às margens das grandes cidades e acostumado a racionar o dinheiro ou destiná-lo exclusivamente para as urgências, a sensação de atraso é constante, uma vez que para participar de uma conversa na escola, por exemplo, sobre um filme que estreou, para muitos de nós só é possível depois que este sai de cartaz e vai para alguma plataforma de streaming. Já estamos atrasados.

Esse sentimento nas crianças causa efeito negativo na autoestima, gera timidez e interfere diretamente na comunicação e nas relações interpessoais. E esta é uma afirmação de uma adulta que foi uma criança atrasada, que sempre chegava depois.

Uma representatividade que só tira dinheiro do nosso bolso e não repõe, não serve. A serviço de quem está todo esse movimento?

A indústria cultural existe há anos e é matéria de dezenas de estudos que classificam ações como essas. Na Indústria Cultural, se fabricam ilusões padronizadas e extraídas de algo que no íntimo é genuíno, estas se mercantilizam sob o aspecto de produtos culturais voltados para obter lucro, reproduzindo assim os interesses das classes dominantes, legitimando-as e perpetuando-as socialmente.

A pouca representatividade tem enorme impacto na autoimagem das crianças negras e no modo como percebem e valorizam sua ancestralidade.

Cabe a nós, pais e ativistas fazer o trabalho incessante de recuperar nossa história e manter viva a esperança das crianças negras diante de tantas ausências.